segunda-feira, 15 de março de 2010

Mitologia Indigena

Os mitos e suas versões
            Antes de tudo existir, antes mesmo da existência, havia uma força, um vento incognoscível. Este poder, movendo-se antes doTau (escuridão, vácuo), gerou o aña (ã-ni-á), que é a essência da alma e matéria prima de todo espírito. Segundo algumas versões do mito (e não há entre os “índios” nenhuma canonicidade, sequer a pretensão dela), este movimento não se deu em meio à inexistência, mas destruiu uma realidade posterior. De qualquer forma, foi a partir do aña que a força primordial gerou a matéria, numa forma maleável como o barro.
            Da criação do aña, também surgiram os Yibiás (senhores). Os Yibiás eram poderosíssimas entidades, seres que de alguma forma adquiriram grande domínio sobre o anã. Ao mesmo tempo, foram criados os céus, as nuvens o mar, os lagos, as plantas, as árvores, os animais e os cerrados. Os mitos são plurais em significados quanto a Criação: em alguns deles, os Yibiásparticiparam dela sob a supervisão do poder maior; noutros, eles apenas tornaram-se senhores de aspectos da criação, tomando posse deles ou sendo profundos conhecedores de suas características. De qualquer forma, os Yibiás recebem este nome justamente por terem se tornado governantes de partes da criação.
            A própria força pré-existente tornou-se senhor de sua primeira e maior criação: o Sol. As Nações indígenas o chamam deNhanderuvuçu (i-n-ã-de-ru-vu-çu), embora outros títulos comoYamandú ou Nhandejara fossem usados dependendo da tribo, nação ou mesmo tradição.
            Todavia, Nhanderuvuçu era grandioso demais para a Criação em movimento. Sua total manifestação decerto a destruiria. Para que ele se manifeste dentro da Criação, precisa usar uma partícula de seu poder, na forma de um Yibiá, ainda que muitíssimo mais poderoso: Tupã. Os Jesuítas, quando chegaram ao Brasil, jamais entenderam este conceito, considerando-o como o filho de Nhanderuvuçu e deus do Trovão. Na verdade, Tupã representa o poder manifesto do pré-existente Vento Sagrado, conceito filosófico tremendamente complexo para a mente dos teólogos do século XVI.
            A Criação completou-se com a geração do primeiro homem e da primeira mulher. Os Yibiás tiveram participação central na gestação, mas aqui novamente os mitos divergem: eles teriam feito isto de forma independente, ou sob a supervisão e autoridade de Nhanderuvuçu?
            Ninguém sabe ao certo. O consenso que se alcança com alguma consistência é que os Yibiás que participaram diretamente da Criação do mundo físico e dos homens são chamados Os Primeiros. Seus nomes e mitos variam de Nação para Nação, tendo em comum um imenso poder.

Para uma introdução a este cenário de RPG sobre os mitos indígenas, ver: http://temasticabrasileiras.blogspot.com.br/2014/04/mitologia-indigena.html

Algumas bases inspirativas
Infelizmente ignorada nas escolas e na midia, a Mitologia Indigena é maravilhosa e vastíssima. A seguir seguem algumas das divindades mais importantes da cultura nativa. Todavia, ao usá-las em jogo, deve-se ter em mente que os Pajés não adoravam tais entidades como os politeistas da Antiguidade. eles eram vistos como forças temiveis a serem respeitadas (ou talvez enfrentadas). Eles não "razam para um deus" mas invocam as "forças da natureza" quando necessário. Alguns agraciados podem receber poderes destas entidades, que entram em simbiose tais mortais, tornando-os espécies de "paladinos" daquela divindade em particular.
Amanda: Amanda significa chuva em tupi. Obviamente, habita nas tempestades, e sua forma humana é uma de uma Índia imponente e caprichosa. É representada por desenhos simples de chuvas. Suas área de atuação está totalmente ligada ao clima.
Araci: deusa do amor, da noite, das artes e do prazer, mãe de Rudá, espírito ligado a paixão. É representada como a lua, ou como uma índia lindíssima de cabelos brilhosos e olhos prateados. Suas áreas de atuação são sombras, cura, amor, musica e paixão.
Guaraná: linda índia que apaixonou-se por Rudá, o espírito do amor carnal e da paixão. Por não poder viver seu amor, ela chorou copiosamente, gerando a planta que gera o fruto que leva seu nome. Manifesta-se como uma linda índia de belos olhos de cores exóticas, mas de feições tristes. Onde há um fruto de guaraná, este espírito (e sua manifestação) poderá ver e ouvir o que acontece. Matar Guaraná cega o louco que o fizer. A única maneira de faze-la desistir é compor-lhe uma canção ou poema de esperança pelo amor perdido. Ela atua nas áreas da adivinhação, herbalismo e plantas.
Iguaçú: este espírito dos rios e águas no estado mais puro. Manifesta-se em um rio límpido e cheio de vida. Sua outra manifestação é de um corpo aquoso de 10 metros: ele pode entrar em qualquer fenda, desmanchar-se sobre inimigos ou causar 1d6 de dano por asfixia a até dez pessoas presas dentro dele. Apenas o dano por fogo pode destruí-lo, ou outras maneiras inteligentes.
Japeusá: o terceiro filho de Rupave e Sipave, que tornou-se o primeiro e maior dos mentirosos e trapaceiros. Desgostoso, cometeu suicídio em um rio próximo a um mangue, mas não foi aceito no Rio Negro (Mundo dos Mortos), retornando na forma de um caranguejo gigante. Ele pode assumir a forma humana para usar de mentiras e falsidade, mas é medíocre e mesquinho no fim das contas. É caracterizado pelo caranguejo. Suas áreas de atuação são: mal, engano e confusão.
Pitajovái: espírito da guerra. Apresenta-se como um índio poderoso, portando arco, flechas, tacape, lança, de pele totalmente pintada para a guerra e cujas pontas dos cabelos estão sujas de sangue inimigo. Suas áreas de atuação são a guerra e aos animais.
Pombero: espírito das travessuras. Apresenta-se como um pequeno índio de pele verde. Suas áreas de atuação são engano, ilusão e confusão.
Mbai-aib: espírito maligno do desespero, calamidades e noticias ruins. Habita em situações de dor e desespero, ou em áreas específicas onde este tipo de coisa pode ser terrivelmente sentida. Quando manifesta-se na terra, o faz como uma revoada de pássaros de mau agouro (como urubus) que abrangem. Na sua presença, homens podem ter dores intensas, contrair uma doença ou sofrer terríveis pesadelos. A única maneira de evitar estes efeitos é destruir os pássaros o que vai irar o Mbai-ab, mas livrará aos personagens, ou realizar um ritual de exorcismo.
Nhanderuvuçu: é o deus supremo, o Sol, senhor da criação, tendo originado o homem através de estatuas de argila, dentro das quais soprou o fôlego da vida. Ele não tem forma definida, mas apresenta-se como um pai bondoso, e os bons e honrados morarão com ele no céu, tornado-se estrelas. Seu mensageiro e representante entre os homens é Tupã, que manifesta-se como um homem cujo corpo é feito de trovão, cuja velocidade não pode ser medida e cuja autoridade lhe permite mergulhar até mesmo no Rio Negro. Nhanderuvuçu é caracterizado por uma flauta em pé, e suas áreas de atuação são: criação, sol, bondade e justiça.
Tau: deus das sombras, do mal, das doenças e da morte. É o pai de sete monstros legendários, cuja mãe é Kerana, uma linda índia capturada por este maldito espírito. É personificado como um forte homem de sombra (todavia tridimensional) de cabelos longos arrepiados e olhos brancos assustadores. Suas áreas de atuação são: doença, mal, sombras e morte. Ele habita no Rio Negro, o Mundo dos Mortos da mitologia indígena: um imenso rio mal assombrando, onde sempre é noite e o fedor de carne podre atormenta os mortos que acordam, sendo este o motivo pelo qual dormem eternamente dentro do leito do rio.



14 comentários:

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  2. http://karipuna.blogspot.com/2008/09/aminjin-kim-arte-marcial-cabocla.html

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  3. Excelente texto a respeito da desconhecida mitologia indígena brasileira.
    Espero ver mais postagens sobre este tema.
    Luiz

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  4. gostei vai me ajudar muito no meu trabalho

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  5. não chegou onde queria...

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  6. EU adorie,me ajudou muito no meu trabalho e aprendi bastante coisa sobre a MITOLOGIA INDIGENA.

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  7. Cara gostei muuuito do seu texto, eu estou escrevendo uma peça sobre mitologia indigena, seria incrivel se podessemos trocar uma idea. E sua idea de fazer RPG com uma tematica brasileira é maravilhosa, acho q vc está no caminho certo.
    forte abraço e agardo seu contato
    hiperativo@r7.com

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    1. Rapaz, mil perdões pela demora em responder.

      Claro que podemos trocar ideias.

      Grande abraço.

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  8. Muito bom mesmo! vai me ajudar muito no meu livro de mitoloia indígena que irá ser relatado no meu blog: yanmonteiroescritor.blogspot.com

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  9. Muito interessante!

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  10. Nossa! Incrível, estive procurando fazer um rpg com essa temática e esse postado com certeza vai ajudar, simplesmente, genial, parabéns

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  11. um amigo meu de londrina, narrador do by night londrina, conseguiu um livro de rpg sob o tema dos índios, estou tentando contato para divulgar o nome

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  12. Para todos . inclusive para o YAN MONTEIRO.
    Precisamos fazer um trabalho onde, mostramos as
    semelhanças entre as diferentes culturas indigi-nas do mundo.Inclusive com a mitologia
    GREGA eINDU. Dando enfase ao respeito que todas
    elas ja tinham com o meio ambiente.
    Espero ter colaborado para com nosso futuro.
    Abraço a todos. ROBERTO DE JESUS.

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